KALOKAGATHIA
O BELO E A JUSTIÇA SEGUNDO PLATÃO EM "A REPÚBLICA"
introdução - investigação do conhecimento - o belo - a justiça - conclusão
sobre Deus em A República - mens sana in corpore sano


O que é o Belo?
O que é a Justiça?
O que é Moral?


RESUMO SOBRE PLATÃO

Platão
Platão

Platão nasceu em Atenas e viveu nos bastidores da política desde cedo, pois sua família descendia de pessoas importantes politicamente. Foi discípulo de Sócrates, com quem aprendeu a se opor aos sofistas, a desmascará-los como os que utilizavam da palavra independentemente da verdade. Sua teoria política já amadurecida foi a defesa de uma aristocracia que não era nem hereditária, nem nobiliárquica, mas intelectual. "Os sábios", dizia, "deverão dirigir e governar, e os ignorantes deverão segui-los." A República é uma das obras mais importantes de Platão. Nela expõe suas principais idéias. Descreve o “mito da caverna”, reflete sobre o que é a filosofia e como é uma sociedade justa. O objetivo principal deste site é narrar o caminho percorrido por Platão ao refletir sobre o belo e a justiça, mas sem se esquecer sobre outras reflexões como Deus e conhecimento.





O que é beleza e o que é justiça pra você? A sociedade é escrava da moda, dos padrões de beleza? Existe justiça no Brasil?










 

INTRODUÇÃO



Sócrates


Sócrates é o personagem principal da obra. Durante uma conversa informal, ele escuta a opinião de seus amigos sobre a velhice, como o amadurecimento muda o caráter e como a justiça é importante na vida, etc.. Então procura discutir se as opiniões são verdadeiras ou não. Mas no meio da roda de amigos tinha um sofista chamado Trasímaco que estava doido para mostrar que era sábio e começou a desafiar Sócrates. Claro que Sócrates se mostrou muito humilde, pois não se dizia sábio e sim aprendiz. Então Trasímaco foi interrogado sobre o que era a justiça na sua concepção. Apartir daí começa uma disputa sobre quem está com a verdade e Sócrates com sua investigação do conhecimento derrota Trasímaco. Sócrates procura demonstrar que a justiça deve ser o bem de todos e não o bem do mais esperto e aproveitador ou do mais forte como queria Trasímaco. Logo após, Sócrates é incumbido a defender a justiça mostrando porque querer o bem de todos por livre espontânea vontade e não por obrigação ou motivos alheios, decidindo se a justiça é um meio ou um fim em si mesma. As citações foram tiradas do livro "A República", editora Martin Claret, 2003.

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INVESTIGAÇÃO DO CONHECIMENTO






A Grécia Antiga iniciou o período de transição da argumentação mitológica para a argumentação filosófica e naquele tempo não havia o rigor metodológico exigido hoje em dia. Assim, Platão filosofava em busca do conhecimento ao mesmo tempo em que abria os caminhos para encontrá-lo. Apesar de sua argumentação lógica, Platão estava menos preocupado em defender uma tese do que enriquecer o debate para as gerações futuras, dado que reconhecia a carência de uma metodologia mais apurada para a investigação do conhecimento.



          O que é a beleza?  O que torna algo belo?  O que é a justiça?
   O que torna o Homem justo? Platão buscava encontrar respostas para
   dúvidas como estas.  Ele almejava a sabedoria que compreendia ser o
   conhecimento verdadeiro.  Para isso ele tinha um método de investigação
   do conhecimento.
          Para o conhecimento verdadeiro Platão exige 3 critérios
   indispensáveis a saber:
· Todo conhecimento tem que ser racional;
· Todo conhecimento tem que ser objetivo;
· Todo conhecimento tem que ser universal.

 
          Segundo Platão a verdade tem que ser racional e irrefutável, clara
   e precisa e válida independentemente do espaço e do tempo para ser aceita
   como verdadeira.
         "A República" não trata diretamente deste assunto mas Platão deixou
   trechos espalhados pela obra que organizam seu raciocínio  acerca
  do que veio a se tornar o conhecimento científico.
   
RACIONALIDADE

                
Adimanto
Adivinho já que queres examinar se havemos de receber na cidade a tragédia e a comédia, ou não.
Sócrates
Talvez, talvez até ainda mais do que isso. Ainda não sei ao certo; mas por onde a razão, como uma brisa nos levar, é por aí que devemos ir. (p.85)
OBJETIVIDADE

             
Trasímaco
Ouve então. Afirmo que a justiça não é outra coisa senão a conveniência do mais forte. Mas por que não aprovas? Não quererás fazê-lo?
Sócrates
Desde que eu compreenda primeiro o que queres dizer, pois por agora ainda não sei. Afirmas tu que na conveniência do mais forte está a justiça. Que queres tu significar com isso, Trasímaco? Pois suponho que não é deste gênero o que queres dizer: se Polidamas, o lutador de pancrácio, que é mais forte que nós, se a ele lhe convém, para o seu físico, comer carne de vaca, tal alimento será também para nós, que lhe somos inferiores, conveniente e justo ao mesmo tempo.
Trasímaco
Não tens vergonha nenhuma, Sócrates, e interpretas as coisas de maneira a desvirtuares o meu argumento.
Sócrates
De modo algum, meu excelente amigo. Explica mais claramente o que queres dizer. (p.25)
UNIVERSALIDADE

       
Sócrates
[...]Ora, uma vez que nós não somos especialistas, entendo que devemos conduzir a investigação da mesma forma que o faríamos, se alguém mandasse ler de longe letras pequenas a pessoas de vista fraca, e então alguma delas desse conta de que existiam as mesmas letras em qualquer outra parte, em tamanho maior e numa escala mais ampla. Parecer-lhes-ia, penso eu, um autêntico achado que, depois de lerem primeiro estas, pudessem então observar as menores, a ver se eram a mesma coisa.
Adimanto
Absolutamente. Mas que semelhança vês tu, Sócrates, com a investigação sobre a justiça?
Sócrates
Vou dizer-te. Diremos que a justiça é de um só indivíduo ou que é também de toda a cidade?
Adimanto
Também é.
Sócrates
Portanto, a cidade é maior do que o indivíduo?
Adimanto
Sim.
Sócrates
Então, talvez exista uma justiça numa escala mais ampla, e mais fácil de apreender. Se quiserdes então, investigaremos primeiro qual a sua natureza nas cidades. Quando tivermos feito essa indagação, executá-la-emos em relação ao indivíduo, observando a semelhança com o maior na forma do menor.(p.55)
* * *
Sócrates
Concordemos, relativamente a natureza dos filósofos, em que estão sempre apaixonados pelo saber que possa revelar-lhes algo daquela essência que existe sempre, e que não se desvirtua por ação da geração e da corrupção.

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O BELO






Segundo Moderno (1997) o senso comum na Grécia Antiga usava a palavra kalón como significando a qualidade daquilo que agrada, que causa admiração ou satisfação à sensibilidade. O conceito de kalón foi para os gregos antigos muito mais amplo que o nosso conceito de Belo estético. Apesar disso considera-se a palavra kalón como referente ao que designamos como belo.

Segundo Platão, para se encontrar a verdade sobre o belo deve-se seguir o caminho da investigação do conhecimento, que é capaz de conduzir a todas as verdades do mundo real, onde o conhecimento é irrefutável e sem contradições. Assim, Platão acredita que a verdade sobre o belo seja um conhecimento racional. Veja onde Platão afirma a existência do belo como conhecimento verdadeiro, o belo em si, a verdade eterna, universal, irrefutável e sem contradições:

O BELO EM SI:
O BELO COMO "CONHECIMENTO VERDADEIRO"

—E que existe o belo em si, e o bom em si, e, do mesmo modo, relativamente a todas as coisas que então postulamos como múltiplas, e , inversamente, postulamos que a cada uma corresponde a uma idéia, que é única, e chamamo-la a sua essência.
—É isso.
—E diremos ainda que aquelas são visíveis, mas não inteligíveis, ao passo que as idéias são inteligíveis, mas não visíveis.
—Absolutamente.
(Platão, p. 204)
* * *

- Os amadores de audições e de espetáculos encantam-se com as belas vozes, cores e formas e todas as obras feitas com tais elementos, embora o seu espírito seja incapaz de discernir e de amar a natureza do belo em si.
- É assim, realmente.
- Mas aqueles que são capazes de subir até ao belo em si e de o contemplar na sua essência, acaso não serão muito raros?
- Mesmo muito.
- Ora quem acreditar que há coisas belas, mas não acreditar que existe a beleza em si nem for capaz de seguir alguém que o conduzisse no caminho do seu conhecimento, parece-te que vive em sonho ou na realidade? Repara bem. Por ventura sonhar não é quando uma pessoa, quer durante o sono, quer desperta, julgar que um objeto semelhante a outro não é uma semelhança, mas o próprio objeto com que se parece?
- Eu, por mim, chamaria sem dúvida sonhar a uma coisa dessas.
- Pois bem! Aquele que, ao contrário deste, entende que existe o belo em si e é capaz de o contemplar, na sua essência e nas coisas em que tem participação, e sabe que as coisas não se identificam com ele, nem ele com as coisas, uma pessoa assim parece-te viver em sonho ou na realidade?
- Claro que na realidade.
- Por conseguinte, diríamos com razão que o pensamento deste homem era conhecimento, visto que sabe, ao passo que o do outro era opinião, visto que se funda nas aparências?
- Absolutamente.
(Platão, p.173).
* * *
(...) me dê a réplica esse honrado homem que não acredita que exista algo de belo em si e na idéia do belo absoluto que se mantém sempre da mesma maneira, mas entende que há muitas coisas belas, esse amador de espetáculos que não consente de modo nenhum que alguém diga que o belo é um só, e o justo, e do mesmo modo as outras realidades. “Ora, dentre estas coisas, meu excelente amigo, diremos que, das muitas que são belas, acaso haverá alguma que não pareça feia? E, das justas, uma que não pareça injusta? E, das santas, uma que não seja ímpia?”.
— Não, mas é preciso que as mesmas coisas pareçam, de certo modo, belas e feias, e bem assim as outras por que perguntas.
— E agora as quantidades duplas? Podem parecer menos metades do que
duplas?
— De modo nenhum.
— E as coisas grandes ou pequenas, leves ou pesadas, não lhes cabem mais estas qualificações que lhe damos do que as inversas?
— Não, mas cada uma delas terá sempre algo de ambas.
— Ora então cada uma destas numerosas coisas é antes aquilo que nós dizemos que é, ou não o é?
(...) Também estas coisas podem ter dois sentidos, e não é possível ter delas uma concepção fixa como sendo ou não sendo, nem como sendo as duas coisas, ou nenhuma delas.
— Que hás de então lhes fazer?
— perguntei eu. — Ou poderás dar-lhes melhor colocação do que entre o Ser e o Não-ser? Porquanto não parecerão mais obscuras do que o Não-ser relativamente a terem mais existência que o Não- ser, nem mais claras do que o Ser relativamente a terem mais existência que o Ser.
— É verdade.
— Descobrimos, portanto, ao que parece, que as múltiplas noções da multidão acerca da beleza e das restantes coisas como que andam a rolar entre o Não-ser e o Ser absoluto.
— Descobrimos.
— Mas estabelecemos previamente em que se uma coisa destas nos aparecesse, teríamos de a considerar do domínio da opinião, e não da ciência, pois, como objeto errante no espaço intermédio, é apreendida pela potência intermediária.
— Sim.
— Por conseguinte, dos que contemplam a multiplicidade de coisas belas, sem verem a beleza em si, nem serem capazes de seguir outra pessoa que os conduza até junto dela, e sem verem a justiça. E tudo da mesma maneira, desses, diremos que têm opiniões sobre tudo, mas não conhecem nada daquilo sobre que as emitem.
— Exatamente.
— E agora os que contemplam as coisas em si, as que permanecem sempre idênticas? Porventura não é isso conhecimento, e não opinião?
— Também isso é evidente.
— Não diremos também que tem entusiasmo e gosto pelas coisas que são objeto de conhecimento, ao passo que aqueles só o têm pelas que são do domínio da opinião? Ou não nos lembramos que dissemos que esses apreciam e contemplam vozes e cores belas e coisas no gênero, mas não admitem que o belo em si seja uma realidade?
— Lembramo-nos.
— Logo, não os ofenderemos de alguma maneira chamando-lhes amigos da opinião em vez de amigos da sabedoria? Acaso se irritarão fortemente conosco, se dissermos assim?
— Não, se acreditarem no que eu digo, porquanto não é licito irritar-se contra a verdade.
— Portanto, devemos chamar amigos da sabedoria, e não amigos da opinião, aos que se dedicam ao ser em si?
— Evidentemente.
(Platão,p.177)

***

Platão desejava que o ser humano vivenciasse o mundo pelo caminho da razão. Segundo Platão, o desenvolvimento racional é a chave para o desenvolvimento humano. Sem a razão não há desenvolvimento moral nem estético ou qualquer outro possível.

Na filosofia de Platão, o elemento racional está contido apenas na “alma” ou na “psique” do Homem. E o corpo é a morada dos elementos que induzem o Homem ao caos ou à desordem. As emoções e as paixões atrapalham a capacidade de bem pensar e de se perceber a diferença entre a realidade e a ilusão. Pensando assim, Platão procura mostrar que o conhecimento é sempre a vitória da ordem sobre o caos. Alguns provérbios populares são produtos dessa concepção filosófica:

“Quando a cabeça não pensa, o corpo padece.”

“Não se deixe iludir: as aparências enganam.”


Pode-se afirmar que para Platão não existe coisa melhor ou que cause mais prazer à alma do que ver a vitória da ordem sobre o caos. Não há nada que dê mais prazer ou agrade mais à alma. Essa afirmação não é coerente com as afirmações platônicas de que o belo é o útil, de que belo é o bem, de que o belo é a harmonia, a simplicidade, a simetria, de que o belo é o bem pensar e a ordem? Todas essas afirmações sobre o belo estão em “A República” e pode-se sintetizá-las numa frase como a seguinte:

O belo é sempre a expressão de uma ordem que sensibiliza pela força que consegue emergir do caos.




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A JUSTIÇA





Em “a República” Platão sempre demonstrou estar ciente de que os argumentos que embasam suas afirmações não representam a verdade última e definitiva, pois esta era velada pela razão em si que está limpa das distorções da visão humana. Esta era a opinião de Platão. Assim, como grande mestre que era deixou sempre claro a importância dos métodos investigativos:

— Mas fica a sabê-lo bem, Glauco, que, em minha opinião, com os métodos de que estamos a servir-nos agora na discussão, jamais atingiremos rigorosamente o nosso fim, pois o caminho que aí conduz é outro, mais longo e mais demorado; contudo, talvez alcancemos um que seja digno do que anteriormente se disse e se examinou.
(p. 131)

Então, que argumentos Platão usa para dizer o que é a justiça?

A premissa básica de Platão para encontrar o que é a justiça consiste no fato de que uma República bem organizada (no sentido de que se age segundo a filosofia do “um por todos e todos por um!”, onde cada um faz a sua parte em benefício de todos) deve ser chamada de sábia, corajosa, sensata e justa. Depois procura saber como essas qualidades se aplicam à República e se da mesma forma podem se aplicados aos indivíduos. Aqui nos importa a explicação sobre a justiça. Por isso ignorou-se a explicação sobre as outras três virtudes, apesar de todas elas estarem entrelaçadas no pensamento platônico sobre a justiça.

Diremos que não seria nada para admirar se estes homens fossem muito felizes deste modo, nem de resto tínhamos fundado a cidade com o fito de que esta raça, apenas, fosse especialmente feliz, mas que o fosse, tanto quanto o possível, a cidade inteira. Supúnhamos, na verdade, que seria numa cidade desta espécie que se encontraria mais a justiça; e na mais mal organizada que, inversamente, se acharia a injustiça; observando-as, determinaríamos o que há muito estamos a procurar. Ora, presentemente estamos a modelar, segundo cremos, a cidade feliz, não tomando à parte um pequeno numero, para os elevar a esse estado, mas a cidade inteira.
(p. 112)

Creio que a nossa cidade, se de fato foi bem fundada, é totalmente boa.

— É forçoso que sim.
— É, portanto, evidente que é sábia, corajosa, sensata e justa.
— É evidente.
(p. 121)

— Mas escuta, e diz se eu digo bem. O princípio que de entrada estabelecemos que devia observar-se em todas as circunstâncias, quando fundamos a cidade, esse princípio é, segundo me parece, ou ele ou uma das suas formas, a justiça. Ora nós estabelecemos, segundo suponho, e repetimo-lo muitas vezes, se bem te lembras, que cada um deve ocupar-se de uma função na cidade, aquela para a qual a sua natureza é mais adequada.

— Dissemos isso, sim.

—Além disso, que executar a tarefa própria, e não se meter nas dos outros, era justiça. Essa afirmação escutamo-la a muitas outras pessoas, e fizemo-la nós mesmos muitas vezes.

— É verdade.
— Logo, meu amigo, esse princípio pode muito bem ser, de certo modo, a justiça: o desempenhar cada um a sua tarefa.
(p. 128)

— Repara então neste ponto, a ver se manténs a tua opinião. Vais incumbir os chefes da cidade de administrar a justiça?

— Sem dúvida.

— E eles, nos seus julgamentos, acaso pretendem qualquer outra coisa de preferência a isto: evitar que cada um detenha bens alheios ou seja privado dos próprios?

— Não; é isso que eles pretendem.
— Considerando que é uma coisa justa?
— Sim.
— E deste modo se concordará que a posse do que pertence a cada um e a execução do que lhe compete constituem a justiça.
— Sim.
(p. 128)

— Não o afirmemos com toda a segurança, mas, se reconhecermos que esta concepção, passando a cada indivíduo em particular, também aí será justiça, já concordaremos — pois por que não o diremos? Caso contrário, então examinaremos qualquer outra questão. Mas agora, levemos a cabo esta investigação, da qual pensávamos que, se tentássemos contemplar a justiça num dos seus maiores possuidores, antes de a vermos aí, se tornaria mais fácil vê-la num indivíduo. E pareceu-nos que tal possuidor era a cidade, e assim fundamos uma o melhor possível, perfeitamente cientes de que a justiça estaria nela, se fosse boa. Aquilo que aí se nos revelou, vamos transferi-lo para o indivíduo, e, se se acertar, bom será. Mas se a justiça se manifestar como algo de diferente no indivíduo, regressaremos novamente à cidade, para tirar a prova, e em breve, comparando-as friccionando-as uma contra a outra, como de uma pederneira, faremos saltar a faísca da justiça. E, depois de ela se ter tornado bem visível, fixá-la-emos em nós mesmos.
(p. 130)

Baseado em que argumento Platão pretende aplicar a definição de justiça encontrada na República ao comportamento dos indivíduos?

— Dessa forma — prossegui eu —, se uma pessoa nomear da mesma maneira uma coisa, quer seja maior ou menor, serão diferentes, na medida em que são designadas da mesma maneira, ou semelhantes?

— Semelhantes — respondeu.
— Por conseguinte, o homem justo, no que respeita à noção de justiça, nada diferirá da cidade justa, mas será semelhante a ela.
— Sim.
— Mas a cidade pareceu-nos justa, quando existiam dentro dela três espécies de naturezas, que executavam cada uma a tarefa que lhe era própria; e, por sua vez, temperante, corajosa e sábia, devido a outras disposições e qualidades dessas mesmas espécies.
— É verdade.
— Logo, meu amigo, entenderemos que o indivíduo que tiver na sua alma estas mesmas espécies merece bem, devido a essas mesmas qualidades, ser tratado pelos mesmos nomes que a cidade.
— É absolutamente forçoso — confirmou ele.
— Ora lá caímos nós, meu caro amigo, numa questão de pouca monta sobre a alma: saber se possui em si três partes ou não.
(p. 130)

— Porventura não é necessário que concordemos que em cada um de nós estão presentes as mesmas partes e caracteres que na cidade? Não é, efetivamente, de nenhum outro lado que elas para lá vão. Seria, na verdade, ridículo que alguém supusesse que a irascibilidade não provinha dos habitantes das cidades, que são acusados de ter esse temperamento, como os da Trácia e da Cítia e de quase todas as regiões setentrionais; ou o gosto pelo saber, que poderia atribuir-se de preferência ao nosso país; ou o amor das riquezas que não deixariam de imputar aos Fenícios e aos Egípicios.

— Mas já é difícil saber se executamos cada ação por efeito do mesmo elemento, ou cada ação por meio de seu elemento, visto que são três. Compreendemos, graças a um; irritamo-nos, por outro dos que temos em nós; desejamos, por um terceiro, o que toca aos prazeres da alimentação, da geração e quantos há semelhantes a estes; ou então praticamos cada uma destas ações com a alma inteira. Isto é que será difícil de determinar convenientemente.
(p. 131)

A ALMA TRIPARTIDA E A NOÇÃO DE JUSTIÇA

A República pode ser considerada justa quando suas virtudes se harmonizam e cada uma faz a sua parte. Mas o Homem pode ser considerado justo pela mesma razão?

Platão passa a investigar se a alma é una ou se é particionada para saber a origem das ações humanas e chegar a conclusão de que o Homem pode ser justo da mesma forma que a República ou não.

Para Platão além de não existir a possibilidade de contradição num raciocínio verdadeiro, também não pode haver sentimentos contraditórios como amor e ódio ou coragem e medo nem tampouco desejos impulsivos e repulsivos ao mesmo tempo numa mesma pessoa sobre um mesmo assunto. Pois tais circunstâncias evidenciariam o conflito de diferentes elementos na alma humana.

— Logo, a alma do sequioso, na medida em que sente a sede, não quer outra coisa que não seja beber, é essa a sua aspiração, esse o seu impulso.
— Diremos além disso que há pessoas que, quando têm sede, recusam beber?
— Sim, há muitas, que o fazem muitas vezes.
— Então que se dirá acerca delas? Que na alma delas não está presente o elemento que impele mas sim o que impede de beber, o qual é distinto do que impele e superintende nele?
— É o que me parece.
— Porventura o elemento que impede tais atos não provém , quando existe, do raciocínio, ao passo que o que impele e arrasta deriva de estados especiais e mórbidos?
— Acho que sim.
— Não é, portanto, sem razão que consideraremos que são dois elementos, distintos um do outro, chamando àquele pelo qual ela raciocina, o elemento racional da alma, e aquele pelo qual ama, tem fome e sede e esvoaça em volta de outros desejos, o elemento irracional e da concupiscência, companheiro de certas satisfações e desejos.

Assim Platão distingue no Homem o elemento da Razão e o elemento do desejo. Mas para ser como a República o Homem deve ter três naturezas.

Será que o elemento que produz a coragem é diferente do elemento da razão e do elemento da concupiscência investigados por Platão? Essa será a próxima investigação de Platão:

— Ora já em muitas outras ocasiões sentimos que, quando as paixões forçam o homem contra a sua razão, ele se censura a si mesmo, se irrita com aquilo que, dentro de si, o força, e que, como se houvesse dois contedores em luta, a cólera se torna aliada da sua razão. Mas não creio que digas que ela se associa aos desejos, quando, tendo a razão determinado que não se devia proceder contra ela, alguma vez te foi possível sentir estas reações em ti, nem tampouco nos outros.
p. 136.

— Que relativamente ao elemento irascível, é o contrário do que nos parecia há pouco. De fato, julgávamos então que se aproximava do elemento de concupiscência, ao passo que agora afirmamos que está muito longe disso; de preferência, toma armas pela razão, quando há luta na alma.
— Exatamente.
p. 136.

Platão afirma que o elemento da coragem é diferente do elemento do desejo pois luta ao lado da razão. Claro que alguém pode discordar e dizer que nossas emoções podem apoiar nossas vontades contra a razão mas Platão discorda disso... Mas esse elemento que produz a coragem, o medo, a ira, etc. por lutar ao lado da razão não formará com este apenas um único elemento?

— Por ventura será diferente da razão, ou uma qualquer das suas formas, de maneira que haverá na alma, não três, mas dois elementos, o racional e o concupiscível? Ou tal como, na cidade, esta se compunha de três classes: a negociante, a auxiliar e a deliberativa; também na alma a terceira servia este elemento irascível, auxiliar do racional por natureza, quando não foi corrompido por uma má educação?

— È forçoso que seja o terceiro.
— Sim — confirmei eu —, se ele se revelar diferente do racional, como já se mostrou distinto do concupiscível.
— Não é difícil que se mostre. Até nas crianças qualquer pessoa pode ver que, mal nascem, são logo cheias de irascibilidade, ao passo que a razão, alguns nunca a alcançam, segundo me parece, e a maioria, só tarde.
— Ora pois atravessamos a nado, com grande custo, este mar de dificuldades, e concordamos perfeitamente que há na cidade e na alma de cada indivíduo as mesmas partes, e em numero igual.
p. 137.

— Logo, não será desde já necessário que o indivíduo seja sábio naquilo mesmo que o é a cidade?

— Sem dúvida.
— E que naquilo em que o indivíduo é corajoso, e da mesma maneira, assim o seja também a cidade, e que em tudo o mais que à virtude respeita, ambos se comportem do mesmo modo?
— É forçoso.
— Logo, segundo julgo, Glauco, diremos que o homem justo o é da mesma maneira que a cidade é justa.
— Também isso é necessário.
— Mas decerto não esquecemos que a cidade era justa pelo fato de cada um executar nela a sua tarefa específica, em cada uma das suas três classes.
— Não me parece que o tenhamos esquecido.
Por conseguinte, devemos recordar-nos que também cada um de nós, no qual cada uma das suas partes desempenha a sua tarefa, será justo e executará o que lhe cumpre.
p. 137.

CADA PARTE DEVE DESEMPENHAR SUA TAREFA.
COMO?

— Portanto, não compete à razão governar, uma vez que é sábia e tem o encargo de velar pela alma toda, e não compete à cólera ser sua súdita e aliada?

— Absolutamente.
— Ora não é, como dissemos, uma mistura de música e de ginástica que harmonizará essas partes, uma fortalecendo-a e alimentando-a com belos discursos e ciência, outra, abrandando-a com boas palavras, domesticando-a pela harmonia e pelo ritmo?
— Exatamente — respondeu ele.
— E estas duas partes, assim criadas, instruídas e educadas de verdade no que lhes respeita, dominarão o elemento concupiscível (que, em cada pessoa, constitui a maior parte da alma e é, por natureza, a mais insaciável de riquezas) e hão de vigia-lo, com receio que ele, enchendo-se dos chamados prazeres físicos, se torne grande e forte,e não execute a sua tarefa, mas tente escravizar e dominar uma parte que não compete à sua classe e subverta toda a vida do conjunto.
p. 138.

— Então?─ exclamei eu. ─ Estará a justiça de algum modo a esfumar-se? Estará a parecer-nos algo de diferente do que se nos apresentava na cidade?

— Creio que não.
— Ora a causa de tudo isto não está em que nele cada elemento executa a sua tarefa própria, quer no que respeita a mandar, quer a obedecer?
— É essa, e nenhuma outra.
— Então ainda procuras saber se a justiça é outra coisa que não seja esta força que produz tais homens e cidades?
— Eu não, por Zeus!
— Cumpriu-se então completamente o nosso sonho, aquilo que nós suspeitávamos, que logo que começássemos a fundar a cidade podíamos, com o auxilio de algum deus, chegar em qualquer princípio e modelo da justiça.
— Absolutamente.
p. 139.

A JUSTIÇA COMEÇA PELA ATITUDE INTERIOR

— Na verdade, a justiça era qualquer coisa neste gênero, ao que parece, exceto que não diz respeito à atividade externa do homem mas à interna, aquilo que é verdadeiramente ele e o que lhe pertence, sem consentir que qualquer das partes da alma se dedique a tarefas alheiassnem que interfiram umas nas outras, mas depois de ter posto a sua casa em ordem no verdadeirosentido, de ter autodomínio, de se organizar, de se tornar amigo de si mesmo, de ter reunido harmoniosamente três elementos diferentes, exatamente como se fossem três termos numa proporção musical, o mais baixo, o mais alto e o intermédio, e outros quaisquer que acaso existam de permeio, e de os ligar a todos, tornando-os, de muitos que eram, numa perfeita unidade, temperante e harmoniosa, só então se ocupe (se é que se ocupa) ou da aquisição de riquezas, ou dos cuidados com o corpo, ou de política ou de contratos particulares, entendendo em todos estes casos e chamando justa e bela à ação que mantenha e aperfeiçoe estes hábitos, e apelidando de sabedoria a ciência que preside a esta ação; ao passo que denominará de injusta a ação que os dissolve a cada passo, e ignorância a opinião que a ela preside.

— Dizes a inteira verdade, caro Sócrates.
p.140.

A ORIGEM DA MALDADE

Platão demonstrou o que julga ser a justiça e agora procura definir o que seja a injustiça:

— É preciso, portanto, que ela seja uma sedição dos elementos do corpo, que são três, uma intriga, uma ingerência no alheio, e uma sublevação de uma parte contra o todo, a fim de exercer nela o poder, sem lhe pertencer, uma vez que possui uma natureza à qual convém a escravatura, ao passo que a que é de raça real não lhe compete servir. Ora são estas alterações, estas perturbações e desvios que resultam na injustiça, na libertinagem, covardia, ignorância e, de um modo geral, toda a maldade. (p. 141)


A JUSTIÇA FAZ PARTE DA NATUREZA HUMANA

A alma para Platão foi criada para atingir esse estado de harmonia que é a justiça. Uma alma justa é uma alma saudável:

— As coisas sãs produzem a saúde, as doentias, a doença.
— Produzem.
— E as coisas justas não produzem a justiça, e as injustas, a injustiça?
— É lógico que sim.
— Ora, produzir a saúde consiste em dispor, de acordo com a natureza, os elementos da alma, para dominarem ou serem dominados uns pelos outros; a doença, em governar ou ser governado um por outro, contra a natureza.
— Consiste, sim.
— Logo, a virtude será, ao que parece, uma espécie de saúde, beleza e bem-estar da alma; a doença, uma enfermidade, fealdade e debilidade. (p. 141)


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