
Em “a República” Platão sempre demonstrou estar ciente de que os argumentos que embasam suas afirmações não representam a verdade última e definitiva, pois esta era velada pela razão em si que está limpa das distorções da visão humana. Esta era a opinião de Platão. Assim, como grande mestre que era deixou sempre claro a importância dos métodos investigativos:
— Mas fica a sabê-lo bem, Glauco, que, em minha opinião, com os métodos de que estamos a servir-nos agora na discussão, jamais atingiremos rigorosamente o nosso fim, pois o caminho que aí conduz é outro, mais longo e mais demorado; contudo, talvez alcancemos um que seja digno do que anteriormente se disse e se examinou.
(p. 131)
Então, que argumentos Platão usa para dizer o que é a justiça?
A premissa básica de Platão para encontrar o que é a justiça consiste no fato de que uma República bem organizada (no sentido de que se age segundo a filosofia do “um por todos e todos por um!”, onde cada um faz a sua parte em benefício de todos) deve ser chamada de sábia, corajosa, sensata e justa. Depois procura saber como essas qualidades se aplicam à República e se da mesma forma podem se aplicados aos indivíduos. Aqui nos importa a explicação sobre a justiça. Por isso ignorou-se a explicação sobre as outras três virtudes, apesar de todas elas estarem entrelaçadas no pensamento platônico sobre a justiça.
Diremos que não seria nada para admirar se estes homens fossem muito felizes deste modo, nem de resto tínhamos fundado a cidade com o fito de que esta raça, apenas, fosse especialmente feliz, mas que o fosse, tanto quanto o possível, a cidade inteira. Supúnhamos, na verdade, que seria numa cidade desta espécie que se encontraria mais a justiça; e na mais mal organizada que, inversamente, se acharia a injustiça; observando-as, determinaríamos o que há muito estamos a procurar. Ora, presentemente estamos a modelar, segundo cremos, a cidade feliz, não tomando à parte um pequeno numero, para os elevar a esse estado, mas a cidade inteira. (p. 112)
Creio que a nossa cidade, se de fato foi bem fundada, é totalmente boa.
— É forçoso que sim.
— É, portanto, evidente que é sábia, corajosa, sensata e justa.
— É evidente. (p. 121)
— Mas escuta, e diz se eu digo bem. O princípio que de entrada estabelecemos que devia observar-se em todas as circunstâncias, quando fundamos a cidade, esse princípio é, segundo me parece, ou ele ou uma das suas formas, a justiça. Ora nós estabelecemos, segundo suponho, e repetimo-lo muitas vezes, se bem te lembras, que cada um deve ocupar-se de uma função na cidade, aquela para a qual a sua natureza é mais adequada.
— Dissemos isso, sim.
—Além disso, que executar a tarefa própria, e não se meter nas dos outros, era justiça. Essa afirmação escutamo-la a muitas outras pessoas, e fizemo-la nós mesmos muitas vezes.
— É verdade.
— Logo, meu amigo, esse princípio pode muito bem ser, de certo modo, a justiça: o desempenhar cada um a sua tarefa. (p. 128)
— Repara então neste ponto, a ver se manténs a tua opinião. Vais incumbir os chefes da cidade de administrar a justiça?
— Sem dúvida.
— E eles, nos seus julgamentos, acaso pretendem qualquer outra coisa de preferência a isto: evitar que cada um detenha bens alheios ou seja privado dos próprios?
— Não; é isso que eles pretendem.
— Considerando que é uma coisa justa?
— Sim.
— E deste modo se concordará que a posse do que pertence a cada um e a execução do que lhe compete constituem a justiça.
— Sim. (p. 128)
— Não o afirmemos com toda a segurança, mas, se reconhecermos que esta concepção, passando a cada indivíduo em particular, também aí será justiça, já concordaremos — pois por que não o diremos? Caso contrário, então examinaremos qualquer outra questão. Mas agora, levemos a cabo esta investigação, da qual pensávamos que, se tentássemos contemplar a justiça num dos seus maiores possuidores, antes de a vermos aí, se tornaria mais fácil vê-la num indivíduo. E pareceu-nos que tal possuidor era a cidade, e assim fundamos uma o melhor possível, perfeitamente cientes de que a justiça estaria nela, se fosse boa. Aquilo que aí se nos revelou, vamos transferi-lo para o indivíduo, e, se se acertar, bom será. Mas se a justiça se manifestar como algo de diferente no indivíduo, regressaremos novamente à cidade, para tirar a prova, e em breve, comparando-as friccionando-as uma contra a outra, como de uma pederneira, faremos saltar a faísca da justiça. E, depois de ela se ter tornado bem visível, fixá-la-emos em nós mesmos. (p. 130)
Baseado em que argumento Platão pretende aplicar a definição de justiça encontrada na República ao comportamento dos indivíduos?
— Dessa forma — prossegui eu —, se uma pessoa nomear da mesma maneira uma coisa, quer seja maior ou menor, serão diferentes, na medida em que são designadas da mesma maneira, ou semelhantes?
— Semelhantes — respondeu.
— Por conseguinte, o homem justo, no que respeita à noção de justiça, nada diferirá da cidade justa, mas será semelhante a ela.
— Sim.
— Mas a cidade pareceu-nos justa, quando existiam dentro dela três espécies de naturezas, que executavam cada uma a tarefa que lhe era própria; e, por sua vez, temperante, corajosa e sábia, devido a outras disposições e qualidades dessas mesmas espécies.
— É verdade.
— Logo, meu amigo, entenderemos que o indivíduo que tiver na sua alma estas mesmas espécies merece bem, devido a essas mesmas qualidades, ser tratado pelos mesmos nomes que a cidade.
— É absolutamente forçoso — confirmou ele.
— Ora lá caímos nós, meu caro amigo, numa questão de pouca monta sobre a alma: saber se possui em si três partes ou não.
(p. 130)
— Porventura não é necessário que concordemos que em cada um de nós estão presentes as mesmas partes e caracteres que na cidade? Não é, efetivamente, de nenhum outro lado que elas para lá vão. Seria, na verdade, ridículo que alguém supusesse que a irascibilidade não provinha dos habitantes das cidades, que são acusados de ter esse temperamento, como os da Trácia e da Cítia e de quase todas as regiões setentrionais; ou o gosto pelo saber, que poderia atribuir-se de preferência ao nosso país; ou o amor das riquezas que não deixariam de imputar aos Fenícios e aos Egípicios.
— Mas já é difícil saber se executamos cada ação por efeito do mesmo elemento, ou cada ação por meio de seu elemento, visto que são três. Compreendemos, graças a um; irritamo-nos, por outro dos que temos em nós; desejamos, por um terceiro, o que toca aos prazeres da alimentação, da geração e quantos há semelhantes a estes; ou então praticamos cada uma destas ações com a alma inteira. Isto é que será difícil de determinar convenientemente.
(p. 131)
A ALMA TRIPARTIDA E A NOÇÃO DE JUSTIÇA
A República pode ser considerada justa quando suas virtudes se harmonizam e cada uma faz a sua parte. Mas o Homem pode ser considerado justo pela mesma razão?
Platão passa a investigar se a alma é una ou se é particionada para saber a origem das ações humanas e chegar a conclusão de que o Homem pode ser justo da mesma forma que a República ou não.
Para Platão além de não existir a possibilidade de contradição num raciocínio verdadeiro, também não pode haver sentimentos contraditórios como amor e ódio ou coragem e medo nem tampouco desejos impulsivos e repulsivos ao mesmo tempo numa mesma pessoa sobre um mesmo assunto. Pois tais circunstâncias evidenciariam o conflito de diferentes elementos na alma humana.
— Logo, a alma do sequioso, na medida em que sente a sede, não quer outra coisa que não seja beber, é essa a sua aspiração, esse o seu impulso.
— Diremos além disso que há pessoas que, quando têm sede, recusam beber?
— Sim, há muitas, que o fazem muitas vezes.
— Então que se dirá acerca delas? Que na alma delas não está presente o elemento que impele mas sim o que impede de beber, o qual é distinto do que impele e superintende nele?
— É o que me parece.
— Porventura o elemento que impede tais atos não provém , quando existe, do raciocínio, ao passo que o que impele e arrasta deriva de estados especiais e mórbidos?
— Acho que sim.
— Não é, portanto, sem razão que consideraremos que são dois elementos, distintos um do outro, chamando àquele pelo qual ela raciocina, o elemento racional da alma, e aquele pelo qual ama, tem fome e sede e esvoaça em volta de outros desejos, o elemento irracional e da concupiscência, companheiro de certas satisfações e desejos.
Assim Platão distingue no Homem o elemento da Razão e o elemento do desejo. Mas para ser como a República o Homem deve ter três naturezas.
Será que o elemento que produz a coragem é diferente do elemento da razão e do elemento da concupiscência investigados por Platão? Essa será a próxima investigação de Platão:
— Ora já em muitas outras ocasiões sentimos que, quando as paixões forçam o homem contra a sua razão, ele se censura a si mesmo, se irrita com aquilo que, dentro de si, o força, e que, como se houvesse dois contedores em luta, a cólera se torna aliada da sua razão. Mas não creio que digas que ela se associa aos desejos, quando, tendo a razão determinado que não se devia proceder contra ela, alguma vez te foi possível sentir estas reações em ti, nem tampouco nos outros.
p. 136.
— Que relativamente ao elemento irascível, é o contrário do que nos parecia há pouco. De fato, julgávamos então que se aproximava do elemento de concupiscência, ao passo que agora afirmamos que está muito longe disso; de preferência, toma armas pela razão, quando há luta na alma.
— Exatamente.
p. 136.
Platão afirma que o elemento da coragem é diferente do elemento do desejo pois luta ao lado da razão. Claro que alguém pode discordar e dizer que nossas emoções podem apoiar nossas vontades contra a razão mas Platão discorda disso... Mas esse elemento que produz a coragem, o medo, a ira, etc. por lutar ao lado da razão não formará com este apenas um único elemento?
— Por ventura será diferente da razão, ou uma qualquer das suas formas, de maneira que haverá na alma, não três, mas dois elementos, o racional e o concupiscível? Ou tal como, na cidade, esta se compunha de três classes: a negociante, a auxiliar e a deliberativa; também na alma a terceira servia este elemento irascível, auxiliar do racional por natureza, quando não foi corrompido por uma má educação?
— È forçoso que seja o terceiro.
— Sim — confirmei eu —, se ele se revelar diferente do racional, como já se mostrou distinto do concupiscível.
— Não é difícil que se mostre. Até nas crianças qualquer pessoa pode ver que, mal nascem, são logo cheias de irascibilidade, ao passo que a razão, alguns nunca a alcançam, segundo me parece, e a maioria, só tarde.
— Ora pois atravessamos a nado, com grande custo, este mar de dificuldades, e concordamos perfeitamente que há na cidade e na alma de cada indivíduo as mesmas partes, e em numero igual.
p. 137.
— Logo, não será desde já necessário que o indivíduo seja sábio naquilo mesmo que o é a cidade?
— Sem dúvida.
— E que naquilo em que o indivíduo é corajoso, e da mesma maneira, assim o seja também a cidade, e que em tudo o mais que à virtude respeita, ambos se comportem do mesmo modo?
— É forçoso.
— Logo, segundo julgo, Glauco, diremos que o homem justo o é da mesma maneira que a cidade é justa.
— Também isso é necessário.
— Mas decerto não esquecemos que a cidade era justa pelo fato de cada um executar nela a sua tarefa específica, em cada uma das suas três classes.
— Não me parece que o tenhamos esquecido.
Por conseguinte, devemos recordar-nos que também cada um de nós, no qual cada uma das suas partes desempenha a sua tarefa, será justo e executará o que lhe cumpre.
p. 137.
CADA PARTE DEVE DESEMPENHAR SUA TAREFA. COMO?
— Portanto, não compete à razão governar, uma vez que é sábia e tem o encargo de velar pela alma toda, e não compete à cólera ser sua súdita e aliada?
— Absolutamente.
— Ora não é, como dissemos, uma mistura de música e de ginástica que harmonizará essas partes, uma fortalecendo-a e alimentando-a com belos discursos e ciência, outra, abrandando-a com boas palavras, domesticando-a pela harmonia e pelo ritmo?
— Exatamente — respondeu ele.
— E estas duas partes, assim criadas, instruídas e educadas de verdade no que lhes respeita, dominarão o elemento concupiscível (que, em cada pessoa, constitui a maior parte da alma e é, por natureza, a mais insaciável de riquezas) e hão de vigia-lo, com receio que ele, enchendo-se dos chamados prazeres físicos, se torne grande e forte,e não execute a sua tarefa, mas tente escravizar e dominar uma parte que não compete à sua classe e subverta toda a vida do conjunto.
p. 138.
— Então?─ exclamei eu. ─ Estará a justiça de algum modo a esfumar-se? Estará a parecer-nos algo de diferente do que se nos apresentava na cidade?
— Creio que não.
— Ora a causa de tudo isto não está em que nele cada elemento executa a sua tarefa própria, quer no que respeita a mandar, quer a obedecer?
— É essa, e nenhuma outra.
— Então ainda procuras saber se a justiça é outra coisa que não seja esta força que produz tais homens e cidades?
— Eu não, por Zeus!
— Cumpriu-se então completamente o nosso sonho, aquilo que nós suspeitávamos, que logo que começássemos a fundar a cidade podíamos, com o auxilio de algum deus, chegar em qualquer princípio e modelo da justiça.
— Absolutamente.
p. 139.
A JUSTIÇA COMEÇA PELA ATITUDE INTERIOR
— Na verdade, a justiça era qualquer coisa neste gênero, ao que parece, exceto que não diz respeito à atividade externa do homem mas à interna, aquilo que é verdadeiramente ele e o que lhe pertence, sem consentir que qualquer das partes da alma se dedique a tarefas alheiassnem que interfiram umas nas outras, mas depois de ter posto a sua casa em ordem no verdadeirosentido, de ter autodomínio, de se organizar, de se tornar amigo de si mesmo, de ter reunido harmoniosamente três elementos diferentes, exatamente como se fossem três termos numa proporção musical, o mais baixo, o mais alto e o intermédio, e outros quaisquer que acaso existam de permeio, e de os ligar a todos, tornando-os, de muitos que eram, numa perfeita unidade, temperante e harmoniosa, só então se ocupe (se é que se ocupa) ou da aquisição de riquezas, ou dos cuidados com o corpo, ou de política ou de contratos particulares, entendendo em todos estes casos e chamando justa e bela à ação que mantenha e aperfeiçoe estes hábitos, e apelidando de sabedoria a ciência que preside a esta ação; ao passo que denominará de injusta a ação que os dissolve a cada passo, e ignorância a opinião que a ela preside.
— Dizes a inteira verdade, caro Sócrates.
p.140.
A ORIGEM DA MALDADE
Platão demonstrou o que julga ser a justiça e agora procura definir o que seja a injustiça:
— É preciso, portanto, que ela seja uma sedição dos elementos do corpo, que são três, uma intriga, uma ingerência no alheio, e uma sublevação de uma parte contra o todo, a fim de exercer nela o poder, sem lhe pertencer, uma vez que possui uma natureza à qual convém a escravatura, ao passo que a que é de raça real não lhe compete servir. Ora são estas alterações, estas perturbações e desvios que resultam na injustiça, na libertinagem, covardia, ignorância e, de um modo geral, toda a maldade. (p. 141)
A JUSTIÇA FAZ PARTE DA NATUREZA HUMANA
A alma para Platão foi criada para atingir esse estado de harmonia que é a justiça. Uma alma justa é uma alma saudável:
— As coisas sãs produzem a saúde, as doentias, a doença.
— Produzem.
— E as coisas justas não produzem a justiça, e as injustas, a injustiça?
— É lógico que sim.
— Ora, produzir a saúde consiste em dispor, de acordo com a natureza, os elementos da alma, para dominarem ou serem dominados uns pelos outros; a doença, em governar ou ser governado um por outro, contra a natureza.
— Consiste, sim.
— Logo, a virtude será, ao que parece, uma espécie de saúde, beleza e bem-estar da alma; a doença, uma enfermidade, fealdade e debilidade. (p. 141)
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